NOSSA HISTORIA

As raízes históricas

“A industrialização está essencialmente associada aos conceitos de organização e de produção em série, os quais deverão ser entendidos analisando de forma mais ampla as relações de produção envolvidas e a mecanização dos meios de produção. A história da industrialização identifica-se num primeiro tempo, com a história da mecanização, isto é, com a evolução das ferramentas e máquinas para a produção de bens.” A feliz definição se encontra no livro Arquitetura, Industrialização e Desenvolvimento (Editora Perspectiva), de Paulo J. V. Bruna, em que ele explica, didaticamente, os caminhos que podem conduzir à evolução da construção.

Na Europa ocorreram fenômenos diversos que ensejaram o emprego do sistema pré-fabricado, em um contexto voltado, de início, para a racionalização. Um deles foi a extrema necessidade de reconstrução, após a Segunda Guerra Mundial. Assim, o período de 1945 a 1950 caracterizou-se pela extraordinária demanda de construções, notadamente habitação. Mas os programas de recomposição urbana e cicatrização das feridas deixadas pela guerra priorizavam também a reconstrução de escolas, hospitais, indústrias, pontes etc.

Não só a guerra ocasionou a demanda. Em anos anteriores à conflagração, nas décadas de 20 e 30, alguns países europeus, como a França, haviam congelado aluguéis e desestimulado investimentos na construção civil, por força de legislação falsamente paternalista, segundo Paulo Bruna, originada em movimentos socialistas da época. E, além de desestimular investimentos, alguns governos simplesmente deixaram de realizar construções. É claro que havia as exceções, mas estas apenas confirmavam as regras. Portanto, quando hoje se diz que a Europa praticou um inédito programa de reconstrução, deve-se levar em conta que ele tinha em vista não só as construções destruídas pelos bombardeios, mas todo um grande patrimônio habitacional dilapidado, já que em amplo período anterior ao conflito não se havia investido maciçamente no setor – em novas construções ou na manutenção das existentes. Quando Eugéne Claudius Petit assumiu o Ministério do Urbanismo e da Reconstrução francês, em setembro de 1948, teve pela frente uma demanda semelhante à que se observa hoje aqui, considerando-se os termos e as implicações históricas respectivas. O fato é que ele dizia ser necessário refazer por volta de dez milhões de habitações, incluindo nessa projeção tanto as destruídas pelas bombas quanto as danificadas pelo tempo ou outros fatores.

Mas a escassez de recursos nos países esgotados pela guerra orientou e determinou prioridades: a reconstrução de indústrias, sistemas de comunicação, transportes, pontes, viadutos etc. A situação era de tal ordem que a Inglaterra controlava com rigor o direito de construir, já que os investimentos e os materiais necessários eram fundamentalmente canalizados para fins sociais ou de produção. Essa fase foi muito importante, pois fortaleceu a consciência da necessidade da racionalização dos componentes, e caracterizou-se por uma impressionante objetividade no uso dos materiais – haja vista os exemplos de dois programas de construções escolares colocados em prática na Inglaterra, o Scola e o Intergrid, bastante significativos em termos de racionalização. Esta abrangia todas as fases da obra: do projeto, passando pela estrutura, aos pormenores mínimos das instalações, com a produção de componentes desenhados criteriosamente para esse fim.

O desenvolvimento da racionalização ensejou os estudos que levaram à coordenação modular. E a coordenação modular experimentou período de notável expressão na Holanda, movimento centralizado no Bowcentrum, em Roterdã. Ali, os estudiosos propunham a construção de grandes edifícios cujos projetos permitissem ágil versatilidade de divisões internas, baseada em vãos de porte médio e no intercâmbio dos componentes.

Foi uma etapa rica no progresso da construção que posteriormente evoluiu para a substituição de componentes. É quando tem início a produção cada vez mais intensiva de componentes mediante sistemas industrializados de pré-fabricação. Um processo que começa no canteiro e progride gradativamente para a usina fixa. Há um período nessa travessia do canteiro para a usina. Mas uma travessia, segundo Paulo Bruna, muito coerente, muito contínua. Alguns fatores históricos e econômicos esclarecem esse avanço da racionalização para a substituição de componentes e da pré-fabricação para a industrialização.

Na década de 50 a Europa viveu o período do boom do crescimento, propiciado também pelo Plano Marshall. A reconstrução deixara de ser motivo para uma simples injeção de recursos e se tornara um canal de desenvolvimento extraordinário. O operário qualificado começou a obter reais vantagens salariais. A mão-de-obra qualificada emigrou, aos poucos, da construção civil, que não tinha meios de oferecer melhores salários, para as indústrias. Como tocar os enormes programas de reconstrução sem mão-de-obra? Alguns países europeus tentaram solucionar esse problema escancarando a porta à imigração, estimulando os operários da construção civil a deixarem sua terra de origem, os países mais pobres da bacia do Mediterrâneo e de outras regiões. Tanto assim que na França há consideráveis contingentes de portugueses, marroquinos e argelinos; na Alemanha, sicilianos, turcos e gregos; e, na Inglaterra, hindus, paquistaneses, jamaicanos etc.

Em geral, essa massa de trabalhadores não era qualificada e, portanto, recebia salários considerados baixos. Então surge a indagação: como produzir, segundo parâmetros técnicos adequados, sem mão-de-obra capacitada? Haviam duas saídas: promover sua qualificação, o que seria oneroso e demorado – e a rigor não convinha qualificar operários imigrantes, contratados temporariamente, ou introduzir um grau de competência e qualidade na construção que só a máquina poderia dar. Passou-se, então, a substituir as funções de canteiro pela mecanização, elevando o nível organizacional dos critérios de produtividade.

Cada vez mais mecanizada, a indústria da construção se tornou complexa e num certo momento, ficou claro que os investimentos nela aplicados só poderiam ser satisfatoriamente amortizados se houvessem grandes demandas – e contínuas. As políticas de evolução das técnicas, o aprimoramento dos equipamentos, resultantes de experiências e da análise de aperfeiçoamentos tecnológicos amadurecidos na prática, com absoluta competência e coerência. E os exemplos são numerosos, tanto na França, Holanda, Inglaterra quanto em outros países.

Na União Soviética optou-se pela construção industrializada tendo em vista a necessidade da produção em massa de edificações. Ali tem sido utilizada a pré-fabricação pesada de células modulares completas. A Escandinávia escolheu o sistema alveolar. E nos Estados Unidos deu-se ênfase à produção de componentes industrializados e novos materiais e à racionalização da construção de estruturas.